
Respiro ofegante enquanto atravesso a ponte Buarque de Macedo, a caminho do Marco Zero. Mas não se engane, não é pelos 1,3 quilômetros entre a empresa e o ponto de encontro.
Aliás, o problema é justamente o maldito encontro.
É por isso que sinto dificuldade em puxar o ar para dentro dos pulmões. É por isso que o suor já escorre pelas minhas costas, mesmo depois de ter ficado meia hora a mais na empresa só para tomar um banho. Depois de um dia inteiro de expediente, me recuso a encontrar quem quer que seja me sentindo suja. No fim das contas, o tempo fresco não fez diferença alguma. O suor de nervoso sempre vence.
Odeio esse intervalo entre o “estou chegando” e o primeiro “oi”. Depois do contato inicial tudo fica mais fácil, mas, até que essa barreira do desconhecido seja quebrada, sinto que meu coração pode escapar pela boca.
Não se engane. Não estou apaixonada nem nada do tipo. Sou só ansiosa mesmo.
Estamos conversando há uma semana. Confesso que me surpreendi com o convite para nos encontrarmos tão cedo. Normalmente as pessoas prolongam conversas até que elas esfriem sozinhas e o match desapareça em silêncio, como se nunca tivesse existido a empolgação das madrugadas viradas jogando conversa fora e pensando que, dessa vez, talvez desse em alguma coisa.
Não foi esse o caso.
O interesse parece mútuo, e talvez seja justamente isso que me assuste.
Sempre desconfio de quem chega rápido demais. Gosto do tempo fazendo seu trabalho. Gosto de conhecer as pessoas devagar, de descobrir suas manias, seus defeitos, os pequenos gestos que nenhuma conversa de uma semana é capaz de revelar. Gosto de conquistar e de ser conquistada.
Ainda assim, resolvi aparecer. Nada realmente acontece quando a gente não se move. É por isso que estou aqui agora.
É bom encontrar alguém que estimule a conversa, que faça perguntas, que me faça rir, que me provoque sem disputar espaço comigo. É bom quando alguém percebe aquilo que a gente deixa escapar nas entrelinhas.
E, admito, também é bom pensar que, daqui a alguns minutos, talvez eu descubra se uma boca carnuda e atrevida beija tão bem quanto sorri nas fotografias e fala manhosa no meu ouvido durante nossas ligações madrugada adentro.
Este texto faz parte de uma série de exercícios de escrita e habita o território da ficção. Qualquer semelhança com pessoas, situações ou acontecimentos reais é mera coincidência.
Deixo aqui um desafio: escreva um microconto a partir de uma cena cotidiana.
Nem todo cotidiano é feito de grandes acontecimentos. Às vezes, basta um encontro que ainda nem aconteceu.
Se escrever, me marque. Vou gostar de ler.
Acompanhe as edições anteriores aqui:
Cotidiano
Entrei na loja de variedades apressada. Precisava de algumas tintas e outros artigos de pintura para terminar um quadro no qual eu estava trabalhando.
2# Cotidiano
O elevador está quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu horário, coisa que me deixa automaticamente de mau humor tão cedo pela manhã. Daí, o breve momento entre a percepção do defeito da caixa metálica e o fato de que terei que subir três lances de escada me faz lembrar que não bati a porca…





Mds eu fiquei ansiosa junto com você AAAAAAAAAAAA MEU DEUS QUE LEITURA BOA