Entrei na loja de variedades apressada. Precisava de algumas tintas e outros artigos de pintura para terminar um quadro no qual eu estava trabalhando.
Ser artista apenas não me sustenta, então eu escapo no horário de almoço daquela segunda-feira cinzenta para comprar os materiais de que preciso e finalizar a arte a tempo da entrega na quarta-feira.
Ao me dirigir ao setor de que precisava, escuto alguém me chamar ao longe. De dentro dos meus sapatos de salto médio, cardigan perolado e calça jeans larga, olho na direção da voz que me chama com um “ei” gritado.
Encaro a desconhecida e espero que ela fale. Parece aguardar uma reação minha enquanto franze o cenho em estranhamento, mas eu simplesmente não a conheço, então permaneço com uma expressão que espero ser neutra, levemente simpática.
— Onde ficam as pistolas de cola quente? — pergunta de forma ríspida, sem hesitar nem por um segundo que eu deveria saber responder.
Me dando conta do que se trata, olho mais uma vez para minhas roupas e lembro vagamente do uniforme vermelho dos funcionários, tão diferente do que visto agora. Penso em responder que ela deveria procurar um funcionário e que eu não saberia dizer, mas ela se adianta diante do meu silêncio avaliativo:
— É pra hoje, mocinha. — ela mais bufa do que fala.
Então mudo de ideia, ignoro a mulher e sigo para as tintas de tecido de que preciso. Escolho as cores e vou em direção ao outro setor em busca do restante do material. Ao longe, escuto sua voz em tom de revolta, mas não me dou ao trabalho de entender o que diz.
Não faço grande caso sobre isso. É tão cotidiano que o único tratamento que dou é o silêncio. Deixo a pessoa mergulhar no próprio constrangimento ou na própria ignorância.
No caixa, cumprimento a operadora com um sorriso cansado e aviso que o pagamento será no pix. A mesma senhora reaparece com um funcionário em seu encalce, este usando um crachá de gerente.
— Foi essa sua funcionária que me tirou pra merda. Espero que faça alguma coisa sobre isso.
Ela carrega no rosto uma feição de vitória. Não dou atenção. As pessoas ao redor se constrangem por ela. Coloco a senha e finalizo o pagamento, enquanto o gerente diz, consternado:
— Ela não é nossa funcionária, senhora.
Só então a mulher olha para mim como quem me enxerga pela primeira vez.
No fim, não era o uniforme vermelho que ela reconhecia em mim.
Esse microconto é exercício de escrita, uma tentativa de registrar pequenas violências cotidianas.
Se você gosta de narrativas curtas, reflexões e outros exercícios literários, pode assinar o Diário gratuitamente para acompanhar os próximos textos.
Obrigada pela leitura. Vou gostar de saber o que esse texto despertou em você nos comentários.
Deixo aqui um desafio: escreva um microconto narrando uma cena cotidiana.
Pode ser algo banal, estranho, engraçado, desconfortável ou silencioso. Pequenas cenas também carregam grandes coisas.
Se fizer, me marque. Vou adorar ler vocês.
Ei! Gostou? Saiba que essa ideia virou série e a segunda edição já está disponível aqui:
2# cotidiano
O elevador está quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu horário, coisa que me deixa automaticamente de mau humor tão cedo pela manhã. Daí, o breve momento entre a percepção do defeito da caixa metálica e o fato de que terei que subir três lances de escada me faz lembrar que não bati a porca…





Amei essa crônica. Bem conta, simples e tão… cotidiana. Me revolta saber que isso ainda acontece.
realmente, cotidiano. me acontece algo semelhante com certa frequência.