O elevador está quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu horário, coisa que me deixa automaticamente de mau humor tão cedo pela manhã. Daí, o breve momento entre a percepção do defeito da caixa metálica e o fato de que terei que subir três lances de escada me faz lembrar que não bati a porcaria do ponto na recepção.
Há males que vêm para o bem, não é o que dizem?
Dou meia-volta, bato o ponto e sigo escada acima.
Nos dois primeiros lances permaneço sozinha pelo percurso, mas, assim que piso o pé direito no primeiro degrau do terceiro andar, vejo Abdias, atendente da cantina da empresa, vindo na direção contrária à minha.
De repente, sinto uma vontade desesperadora de ficar invisível, mas não fico e, na verdade, minha presença já é tão evidente que não consigo dar meia-volta e me esconder no banheiro do térreo até que o caminho esteja livre sem que ele me perceba.
Visto minha melhor máscara de neutralidade e cruzo os braços na frente dos seios, que estão muito bem cobertos por uma blusa de gola alta e mangas, mas isso nunca impediu nada. Então cedo ao reflexo ingênuo de me proteger com os braços na frente dos peitos quando ele se aproxima, sorridente como sempre.
— Princesa linda, bom dia!
— Bom dia, seu Abdias.
— Está muito elegante hoje. Todos os dias!
Sorrio de volta, sem graça, enquanto ele ri da própria “espiritualidade”. Devolvo apenas um “obrigada” enquanto tento desviar do seu corpo grande, que bloqueia o caminho, mas é claro que ele nunca perde a oportunidade de me olhar de cima abaixo e esfregar meus ombros num carinho íntimo demais para alguém a quem eu nunca dei abertura suficiente.
— Hoje tem torta de maracujá, sua preferida, lá na cantina.
Ele sabe disso porque, quando comecei a trabalhar aqui, caí na besteira de comentar isso com sua figura, que parecia ser apenas um atendente muito simpático e solícito.
Sorrio sem graça e sem força para responder com palavras. Na maior parte do tempo consigo evitar qualquer interação com essa criatura, mas, às vezes, acontece, e isso sempre me causa uma repulsa e um medo que me atormentam por dias.
Desconverso, digo qualquer coisa que nem registro direito e pego o celular, fingindo ter recebido uma mensagem urgente que me obriga a subir a escada às pressas, enquanto ele permanece parado atrás de mim, me olhando de cima abaixo. Fica ali até que eu mesma saia do seu campo de visão.
Mas não se engane.
Abdias não é ruim. Funcionário exemplar. Faz parte da brigada de incêndio, da CIPA, sempre solícito e muito educado. Mais de vinte anos de casa, casado, cristão, pai de dois filhos.
Uma reputação impecável e muitos fãs dentro da empresa.
Ele jamais faria qualquer coisa para assustar uma mulher vinte anos mais nova.
Nenhuma acusação contra ele pode ter algum fundamento. Por isso mesmo, ainda que eu não seja a única, não há nada formalmente direcionado à sua conduta.
Ele é um homem bom, de valor.
Minhas palavras não ditas e meu incômodo jamais mudarão isso.
Minha esperança é a aposentadoria. Ou a morte, quem sabe.
Mais fácil mudar de emprego.
O elevador está sempre quebrando e eu tenho preguiça de subir os três lances de escada.
Já é cotidiano e o cotidiano me cansa às vezes.
Este é um exercício de escrita e uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, situações ou acontecimentos reais é mera coincidência.
Deixo aqui um desafio: escreva um microconto a partir de uma cena cotidiana.
Às vezes, as histórias mais duras moram justamente nas situações mais comuns.
Se escrever, me marque. Vou gostar de ler.
“Cotidiano” é uma série de contos que vez ou outra vai aparecer por aqui, para ler a primeira edição, acesse:
https://open.substack.com/pub/gabrielytrindade/p/cotidiano?r=54ea98&utm_medium=ios




Todo mundo infelizmente conhece um abdias
sei que é ficção, mas que ódio desse homemmm