<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[The Purple Diary of Gabi: Contos]]></title><description><![CDATA[SEÇÃO DEDICADA A PUBLICAÇÃO DE CONTOS AUTORAIS]]></description><link>https://gabrielytrindade.substack.com/s/contos</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9f3q!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F753266ab-545a-43cc-9c79-8a2c752345ee_1181x1181.png</url><title>The Purple Diary of Gabi: Contos</title><link>https://gabrielytrindade.substack.com/s/contos</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 04 Aug 2026 14:11:43 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://gabrielytrindade.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Gabriely trindade]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[gabrielytrindade@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[gabrielytrindade@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Gabriely Trindade]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Gabriely Trindade]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[gabrielytrindade@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[gabrielytrindade@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Gabriely Trindade]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[3# Cotidiano ]]></title><description><![CDATA[Primeiro encontro]]></description><link>https://gabrielytrindade.substack.com/p/3-cotidiano</link><guid isPermaLink="false">https://gabrielytrindade.substack.com/p/3-cotidiano</guid><dc:creator><![CDATA[Gabriely Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 14 Jul 2026 03:31:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-sFH!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7be7834f-3aec-4bd5-80ae-3098fc8b1b08_1080x1080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7be7834f-3aec-4bd5-80ae-3098fc8b1b08_1080x1080.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&#128247; yagazieemezi&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7be7834f-3aec-4bd5-80ae-3098fc8b1b08_1080x1080.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p><span>Respiro ofegante enquanto atravesso a ponte Buarque de Macedo, a caminho do Marco Zero. Mas n&#227;o se engane, n&#227;o &#233; pelos 1,3 quil&#244;metros entre a empresa e o ponto de encontro.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">The Purple Diary of Gabi &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>Ali&#225;s, o problema &#233; justamente o maldito encontro.</span></p><p><span>&#201; por isso que sinto dificuldade em puxar o ar para dentro dos pulm&#245;es. &#201; por isso que o suor j&#225; escorre pelas minhas costas, mesmo depois de ter ficado meia hora a mais na empresa s&#243; para tomar um banho. Depois de um dia inteiro de expediente, me recuso a encontrar quem quer que seja me sentindo suja. No fim das contas, o tempo fresco n&#227;o fez diferen&#231;a alguma. O suor de nervoso sempre vence.</span></p><p><span>Odeio esse intervalo entre o &#8220;estou chegando&#8221; e o primeiro &#8220;oi&#8221;. Depois do contato inicial tudo fica mais f&#225;cil, mas, at&#233; que essa barreira do desconhecido seja quebrada, sinto que meu cora&#231;&#227;o pode escapar pela boca.</span></p><p><span>N&#227;o se engane. N&#227;o estou apaixonada nem nada do tipo. Sou s&#243; ansiosa mesmo.</span></p><p><span>Estamos conversando h&#225; uma semana. Confesso que me surpreendi com o convite para nos encontrarmos t&#227;o cedo. Normalmente as pessoas prolongam conversas at&#233; que elas esfriem sozinhas e o match desapare&#231;a em sil&#234;ncio, como se nunca tivesse existido a empolga&#231;&#227;o das madrugadas viradas jogando conversa fora e pensando que, dessa vez, talvez desse em alguma coisa.</span></p><p><span>N&#227;o foi esse o caso.</span></p><p><span>O interesse parece m&#250;tuo, e talvez seja justamente isso que me assuste.</span></p><p><span>Sempre desconfio de quem chega r&#225;pido demais. Gosto do tempo fazendo seu trabalho. Gosto de conhecer as pessoas devagar, de descobrir suas manias, seus defeitos, os pequenos gestos que nenhuma conversa de uma semana &#233; capaz de revelar. Gosto de conquistar e de ser conquistada.</span></p><p><span>Ainda assim, resolvi aparecer. Nada realmente acontece quando a gente n&#227;o se move. &#201; por isso que estou aqui agora.</span></p><p><span>&#201; bom encontrar algu&#233;m que estimule a conversa, que fa&#231;a perguntas, que me fa&#231;a rir, que me provoque sem disputar espa&#231;o comigo. &#201; bom quando algu&#233;m percebe aquilo que a gente deixa escapar nas entrelinhas.</span></p><p><span>E, admito, tamb&#233;m &#233; bom pensar que, daqui a alguns minutos, talvez eu descubra se uma boca carnuda e atrevida beija t&#227;o bem quanto sorri nas fotografias e fala manhosa no meu ouvido durante nossas liga&#231;&#245;es madrugada adentro.</span></p><div><hr></div><p><mark data-color="#d5a6bd" style="background-color: rgb(213, 166, 189); color: rgb(0, 0, 0);"><span>Este texto faz parte de uma s&#233;rie de exerc&#237;cios de escrita e habita o territ&#243;rio da fic&#231;&#227;o. Qualquer semelhan&#231;a com pessoas, situa&#231;&#245;es ou acontecimentos reais &#233; mera coincid&#234;ncia.</span></mark></p><p><span data-color="#741b47" style="color: rgb(116, 27, 71);">Deixo aqui um desafio: escreva um microconto a partir de uma cena cotidiana.</span></p><p><em><span>Nem todo cotidiano &#233; feito de grandes acontecimentos. &#192;s vezes, basta um encontro que ainda nem aconteceu.</span></em></p><p><span>Se escrever, me marque. Vou gostar de ler.</span></p><div><hr></div><p><span>Acompanhe as edi&#231;&#245;es anteriores aqui:</span></p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;f338bda4-6b1f-4da2-98d9-4571df3a31b9&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Entrei na loja de variedades apressada. Precisava de algumas tintas e outros artigos de pintura para terminar um quadro no qual eu estava trabalhando.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cotidiano&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:309715820,&quot;name&quot;:&quot;Gabriely Trindade &#8857;&#8861;&#8860;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Estudante de bacharelado em administra&#231;&#227;o, CLT, army e &#8220;&#8221;escritora&#8221;&#8221;. Conc&#237;lio trabalho, faculdade e escrita, sejam bem-vindas(os) ao meu modo de ver o mundo| 1999 &#128156;&#129653;&#129655;&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0a6c893c-39c9-4522-acc2-82c23d7532ed_962x964.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-09T16:34:56.484Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/p/cotidiano&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;Contos&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:201325158,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:64,&quot;comment_count&quot;:15,&quot;publication_id&quot;:3767085,&quot;publication_name&quot;:&quot;The Purple Diary of Gabi&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9f3q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F753266ab-545a-43cc-9c79-8a2c752345ee_1181x1181.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;6b9b55a5-29c5-4354-b213-63bd4f762c44&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;O elevador est&#225; quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu hor&#225;rio, coisa que me deixa automaticamente de mau humor t&#227;o cedo pela manh&#227;. Da&#237;, o breve momento entre a percep&#231;&#227;o do defeito da caixa met&#225;lica e o fato de que terei que subir tr&#234;s lances de escada me faz lembrar que n&#227;o bati a porca&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;2# Cotidiano &quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:309715820,&quot;name&quot;:&quot;Gabriely Trindade &#8857;&#8861;&#8860;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Estudante de bacharelado em administra&#231;&#227;o, CLT, army e &#8220;&#8221;escritora&#8221;&#8221;. 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Yvma!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae1205c9-05d5-42bf-bb80-d1d2232049e7_1200x1600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Yvma!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae1205c9-05d5-42bf-bb80-d1d2232049e7_1200x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Yvma!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae1205c9-05d5-42bf-bb80-d1d2232049e7_1200x1600.jpeg 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Imagem do Pinterest</figcaption></figure></div><p>O elevador est&#225; quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu hor&#225;rio, coisa que me deixa automaticamente de mau humor t&#227;o cedo pela manh&#227;. Da&#237;, o breve momento entre a percep&#231;&#227;o do defeito da caixa met&#225;lica e o fato de que terei que subir tr&#234;s lances de escada me faz lembrar que n&#227;o bati a porcaria do ponto na recep&#231;&#227;o.</p><p>H&#225; males que v&#234;m para o bem, n&#227;o &#233; o que dizem?</p><p>Dou meia-volta, bato o ponto e sigo escada acima.</p><p>Nos dois primeiros lances permane&#231;o sozinha pelo percurso, mas, assim que piso o p&#233; direito no primeiro degrau do terceiro andar, vejo Abdias, atendente da cantina da empresa, vindo na dire&#231;&#227;o contr&#225;ria &#224; minha.</p><p>De repente, sinto uma vontade desesperadora de ficar invis&#237;vel, mas n&#227;o fico e, na verdade, minha presen&#231;a j&#225; &#233; t&#227;o evidente que n&#227;o consigo dar meia-volta e me esconder no banheiro do t&#233;rreo at&#233; que o caminho esteja livre sem que ele me perceba.</p><p>Visto minha melhor m&#225;scara de neutralidade e cruzo os bra&#231;os na frente dos seios, que est&#227;o muito bem cobertos por uma blusa de gola alta e mangas, mas isso nunca impediu nada. Ent&#227;o cedo ao reflexo ing&#234;nuo de me proteger com os bra&#231;os na frente dos peitos quando ele se aproxima, sorridente como sempre.</p><p>&#8212; Princesa linda, bom dia!</p><p>&#8212; Bom dia, seu Abdias.</p><p>&#8212; Est&#225; muito elegante hoje. Todos os dias!</p><p>Sorrio de volta, sem gra&#231;a, enquanto ele ri da pr&#243;pria &#8220;espiritualidade&#8221;. Devolvo apenas um &#8220;obrigada&#8221; enquanto tento desviar do seu corpo grande, que bloqueia o caminho, mas &#233; claro que ele nunca perde a oportunidade de me olhar de cima abaixo e esfregar meus ombros num carinho &#237;ntimo demais para algu&#233;m a quem eu nunca dei abertura suficiente.</p><p>&#8212; Hoje tem torta de maracuj&#225;, sua preferida, l&#225; na cantina.</p><p>Ele sabe disso porque, quando comecei a trabalhar aqui, ca&#237; na besteira de comentar isso com sua figura, que parecia ser apenas um atendente muito simp&#225;tico e sol&#237;cito.</p><p>Sorrio sem gra&#231;a e sem for&#231;a para responder com palavras. Na maior parte do tempo consigo evitar qualquer intera&#231;&#227;o com essa criatura, mas, &#224;s vezes, acontece, e isso sempre me causa uma repulsa e um medo que me atormentam por dias.</p><p>Desconverso, digo qualquer coisa que nem registro direito e pego o celular, fingindo ter recebido uma mensagem urgente que me obriga a subir a escada &#224;s pressas, enquanto ele permanece parado atr&#225;s de mim, me olhando de cima abaixo. Fica ali at&#233; que eu mesma saia do seu campo de vis&#227;o.</p><p>Mas n&#227;o se engane.</p><p>Abdias n&#227;o &#233; ruim. Funcion&#225;rio exemplar. Faz parte da brigada de inc&#234;ndio, da CIPA, sempre sol&#237;cito e muito educado. Mais de vinte anos de casa, casado, crist&#227;o, pai de dois filhos.</p><p>Uma reputa&#231;&#227;o impec&#225;vel e muitos f&#227;s dentro da empresa.</p><p>Ele jamais faria qualquer coisa para assustar uma mulher vinte anos mais nova.</p><p>Nenhuma acusa&#231;&#227;o contra ele pode ter algum fundamento. Por isso mesmo, ainda que eu n&#227;o seja a &#250;nica, n&#227;o h&#225; nada formalmente direcionado &#224; sua conduta.</p><p>Ele &#233; um homem bom, de valor.</p><p>Minhas palavras n&#227;o ditas e meu inc&#244;modo jamais mudar&#227;o isso.</p><p>Minha esperan&#231;a &#233; a aposentadoria. Ou a morte, quem sabe.</p><p>Mais f&#225;cil mudar de emprego.</p><p>O elevador est&#225; sempre quebrando e eu tenho pregui&#231;a de subir os tr&#234;s lances de escada.</p><p>J&#225; &#233; cotidiano e o cotidiano me cansa &#224;s vezes.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:null,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigada por ler! Para ler mais micro contos como esse, se subscreva no di&#225;rio, vou adorar ter voc&#234; por aqui &#128149;</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><div><hr></div><p><code>Este &#233; um exerc&#237;cio de escrita e uma obra de fic&#231;&#227;o. Qualquer semelhan&#231;a com pessoas, situa&#231;&#245;es ou acontecimentos reais &#233; mera coincid&#234;ncia.</code></p><div><hr></div><p>Deixo aqui um desafio: escreva um microconto a partir de uma cena cotidiana.</p><p>&#192;s vezes, as hist&#243;rias mais duras moram justamente nas situa&#231;&#245;es mais comuns.</p><p>Se escrever, me marque. Vou gostar de ler.</p><div><hr></div><p>&#8220;Cotidiano&#8221; &#233; uma s&#233;rie de contos que vez ou outra vai aparecer por aqui, para ler a primeira edi&#231;&#227;o, acesse: </p><p><a href="https://open.substack.com/pub/gabrielytrindade/p/cotidiano?r=54ea98&amp;utm_medium=ios">https://open.substack.com/pub/gabrielytrindade/p/cotidiano?r=54ea98&amp;utm_medium=ios</a></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cotidiano]]></title><description><![CDATA[apenas um exerc&#237;cio de escrita]]></description><link>https://gabrielytrindade.substack.com/p/cotidiano</link><guid isPermaLink="false">https://gabrielytrindade.substack.com/p/cotidiano</guid><dc:creator><![CDATA[Gabriely Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 09 Jun 2026 16:34:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif 848w, 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data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:400,&quot;width&quot;:400,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SmsB!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F540c8b7e-7580-4430-8e61-ce6a8079acdc_400x400.gif 424w, 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stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">pinterest</figcaption></figure></div><p>Entrei na loja de variedades apressada. Precisava de algumas tintas e outros artigos de pintura para terminar um quadro no qual eu estava trabalhando.</p><p>Ser artista apenas n&#227;o me sustenta, ent&#227;o eu escapo no hor&#225;rio de almo&#231;o daquela segunda-feira cinzenta para comprar os materiais de que preciso e finalizar a arte a tempo da entrega na quarta-feira.</p><p>Ao me dirigir ao setor de que precisava, escuto algu&#233;m me chamar ao longe. De dentro dos meus sapatos de salto m&#233;dio, cardigan perolado e cal&#231;a jeans larga, olho na dire&#231;&#227;o da voz que me chama com um &#8220;ei&#8221; gritado.</p><p>Encaro a desconhecida e espero que ela fale. Parece aguardar uma rea&#231;&#227;o minha enquanto franze o cenho em estranhamento, mas eu simplesmente n&#227;o a conhe&#231;o, ent&#227;o permane&#231;o com uma express&#227;o que espero ser neutra, levemente simp&#225;tica.</p><p>&#8212; Onde ficam as pistolas de cola quente? &#8212; pergunta de forma r&#237;spida, sem hesitar nem por um segundo que eu deveria saber responder.</p><p>Me dando conta do que se trata, olho mais uma vez para minhas roupas e lembro vagamente do uniforme vermelho dos funcion&#225;rios, t&#227;o diferente do que visto agora. Penso em responder que ela deveria procurar um funcion&#225;rio e que eu n&#227;o saberia dizer, mas ela se adianta diante do meu sil&#234;ncio avaliativo:</p><p>&#8212; &#201; pra hoje, mocinha. &#8212; ela mais bufa do que fala.</p><p>Ent&#227;o mudo de ideia, ignoro a mulher e sigo para as tintas de tecido de que preciso. Escolho as cores e vou em dire&#231;&#227;o ao outro setor em busca do restante do material. Ao longe, escuto sua voz em tom de revolta, mas n&#227;o me dou ao trabalho de entender o que diz.</p><p>N&#227;o fa&#231;o grande caso sobre isso. &#201; t&#227;o cotidiano que o &#250;nico tratamento que dou &#233; o sil&#234;ncio. Deixo a pessoa mergulhar no pr&#243;prio constrangimento ou na pr&#243;pria ignor&#226;ncia.</p><p>No caixa, cumprimento a operadora com um sorriso cansado e aviso que o pagamento ser&#225; no pix. A mesma senhora reaparece com um funcion&#225;rio em seu encalce, este usando um crach&#225; de gerente.</p><p>&#8212; Foi essa sua funcion&#225;ria que me tirou pra merda. Espero que fa&#231;a alguma coisa sobre isso.</p><p>Ela carrega no rosto uma fei&#231;&#227;o de vit&#243;ria. N&#227;o dou aten&#231;&#227;o. As pessoas ao redor se constrangem por ela. Coloco a senha e finalizo o pagamento, enquanto o gerente diz, consternado:</p><p>&#8212; Ela n&#227;o &#233; nossa funcion&#225;ria, senhora.</p><p>S&#243; ent&#227;o a mulher olha para mim como quem me enxerga pela primeira vez.</p><p>No fim, n&#227;o era o uniforme vermelho que ela reconhecia em mim.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">The Purple Diary of Gabi is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div><p>Esse microconto &#233; exerc&#237;cio de escrita, uma tentativa de registrar pequenas viol&#234;ncias cotidianas.</p><p>Se voc&#234; gosta de narrativas curtas, reflex&#245;es e outros exerc&#237;cios liter&#225;rios, pode assinar o Di&#225;rio gratuitamente para acompanhar os pr&#243;ximos textos.</p><p>Obrigada pela leitura. Vou gostar de saber o que esse texto despertou em voc&#234; nos coment&#225;rios.</p><p><mark data-color="#d5a6bd" style="background-color: rgb(213, 166, 189); color: rgb(0, 0, 0);">Deixo aqui um desafio: escreva um microconto narrando uma cena cotidiana.</mark></p><p><mark data-color="#d5a6bd" style="background-color: rgb(213, 166, 189); color: rgb(0, 0, 0);">Pode ser algo banal, estranho, engra&#231;ado, desconfort&#225;vel ou silencioso. Pequenas cenas tamb&#233;m carregam grandes coisas.</mark></p><p><mark data-color="#d5a6bd" style="background-color: rgb(213, 166, 189); color: rgb(0, 0, 0);">Se fizer, me marque. Vou adorar ler voc&#234;s.</mark></p><div><hr></div><p>Ei! Gostou? Saiba que essa ideia virou s&#233;rie e a segunda edi&#231;&#227;o j&#225; est&#225; dispon&#237;vel aqui:</p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;096226ea-5fa8-4b49-af1c-877d0c2bc187&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;O elevador est&#225; quebrado mais uma vez quando chego na firma faltando cinco minutos para estourar meu hor&#225;rio, coisa que me deixa automaticamente de mau humor t&#227;o cedo pela manh&#227;. Da&#237;, o breve momento entre a percep&#231;&#227;o do defeito da caixa met&#225;lica e o fato de que terei que subir tr&#234;s lances de escada me faz lembrar que n&#227;o bati a porca&#8230;&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;2# cotidiano &quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:309715820,&quot;name&quot;:&quot;Gabriely Trindade &#8857;&#8861;&#8860;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Estudante de bacharelado em administra&#231;&#227;o, CLT, army e &#8220;&#8221;escritora&#8221;&#8221;. Conc&#237;lio trabalho, faculdade e escrita, sejam bem-vindas(os) ao meu modo de ver o mundo| 1999 &#128156;&#129653;&#129655;&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9078761e-ff2b-4df7-bbe2-fd3c7894c523_842x846.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-07-05T18:21:45.371Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Yvma!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fae1205c9-05d5-42bf-bb80-d1d2232049e7_1200x1600.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/p/2-cotidiano&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;Contos&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:205325172,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:3767085,&quot;publication_name&quot;:&quot;The Purple Diary of Gabi&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9f3q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F753266ab-545a-43cc-9c79-8a2c752345ee_1181x1181.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mistérios da meia-noite]]></title><description><![CDATA[um conto. parte 1.]]></description><link>https://gabrielytrindade.substack.com/p/misterios-da-meia-noite</link><guid isPermaLink="false">https://gabrielytrindade.substack.com/p/misterios-da-meia-noite</guid><dc:creator><![CDATA[Gabriely Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sun, 22 Feb 2026 04:02:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/418c70a3-f04d-43ff-9157-e6ebc08bd719_500x200.gif" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em><s>Esse conto nasceu febril &#8212; no meio de uma gripe insistente e de uma dor de cabe&#231;a que n&#227;o d&#225; tr&#233;gua. A ideia come&#231;ou a tomar forma enquanto eu ouvia &#8220;Mist&#233;rios da Meia-Noite&#8221;, de Z&#233; Ramalho, uma musica que para mim tamb&#233;m conta uma hist&#243;ria. Talvez seja a febre misturada com a can&#231;&#227;o escrevendo por mim. Talvez amanh&#227; eu leia tudo isso e ache exagerado demais. Mas hoje ele existe assim: quente, inquieto e cheio de lua cheia.</s></em></p><p><em><s>Essa &#233; a primeira parte. Se voc&#234;s gostarem, eu volto com o final &#8212; espero que menos febril, mas provavelmente ainda quente.</s></em></p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif" width="500" height="200" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:200,&quot;width&quot;:500,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xDvj!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F818625a1-ce12-4f34-8358-00dd93fda592_500x200.gif 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>Numa certa cidadezinha do interior nordestino, dessas de 5.000 habitantes, se tanto, onde todo mundo se conhecia, circulava um alarmante boato de que um lobisomem rondava &#224; noite roubando galinhas e bebendo o sangue das cabras.</p><p>N&#227;o se sabe ao certo como se chegara &#224; conclus&#227;o de que se tratava dessa qualidade de criatura. Um primo de dona Maria, mulher respeitada e casada com seu Ant&#244;nio, o fazendeiro, foi quem espalhou a conversa. Disse que a irm&#227; do dono da &#250;nica bodega da cidade, neta de seu Osvaldo, que gostava de ca&#231;ar rolinha e pre&#225; no entardecer, tinha ouvido do av&#244; que ele mesmo viu o rastro da coisa numa hora que n&#227;o era nem dia nem noite, entrando pelo ro&#231;ado de seu Manoel e dona Rosa, que vendiam verdura na feirinha de domingo e frango de abate durante a semana.</p><p>O velho ca&#231;ador contou &#224; neta que atirou atr&#225;s da assombra&#231;&#227;o bem na hora em que os vizinhos tinham acabado o sil&#234;ncio do Senhor<sup>1</sup>. Os tr&#234;s se encontraram no quintal manchado de sangue. Dona Rosa segurava nos bra&#231;os a &#250;nica ave que escapou viva. Ali mesmo bateram o martelo: aquilo s&#243; podia ser lobisomem.</p><p>&#8212; Hoje &#233; noite de lua cheia, e por essas bandas n&#227;o aparece lobo &#224; toa &#8212; disse seu Manoel, com jeito de quem j&#225; tinha feito as contas.</p><p>&#8212; E pra fazer esse estrago todo, meu compadre, criatura comum n&#227;o &#233;, n&#227;o &#8212; completou seu Osvaldo, co&#231;ando o queixo.</p><p>Depois disso, a tal presen&#231;a passou a rondar as casas meia-noite adentro, enquanto o povo dormia desprevenido. Nas noites de lua cheia j&#225; se aguardava a visita.</p><p>Guardaram as aves em gaiola refor&#231;ada, soltaram cachorro bravo nos quintais, mas, ainda assim, a peste sempre dava um jeito de levar uma ou outra.</p><div><hr></div><p>Eva, ou Evinha, filha &#250;nica de seu Ant&#244;nio e dona Maria, j&#225; ia nos seus vinte anos e n&#227;o tinha vontade nenhuma de casar. Estudou magist&#233;rio na capital e agora dava aula na &#250;nica escola daquela cidade esquecida no mapa. O pai n&#227;o perdia ocasi&#227;o de se lamentar por a&#237;, dizendo que se arrependia de ter deixado a menina estudar longe demais, que era isso que dava: agora n&#227;o queria constituir fam&#237;lia ali.</p><p>Eva era atentada, como dizia a m&#227;e. Domava o pai na do&#231;ura, enrolava o velho at&#233; ele acabar cedendo tudo o que ela queria. Era filha boa, carinhosa, estudiosa. Seu &#250;nico &#8220;defeito&#8221; era n&#227;o se interessar por rapaz nenhum da cidade.</p><p>&#8212; Minha filha, escute sua m&#227;e. O filho de seu Dami&#227;o &#233; um homem direito, trabalhador, anda muito interessado em voc&#234;.</p><p>N&#227;o era raro dona Maria ou seu Ant&#244;nio aparecerem com conversa de pretendente para cima de Evinha.</p><p>&#8212; Mainha, os homens daqui s&#243; faltam botar cabresto na mulher quando casam. Eu mesma ouvi seu Dami&#227;o dizer que nora dele n&#227;o trabalha fora. E eu n&#227;o deixo de trabalhar nunca, viu? S&#243; quando chegar a hora de me aposentar.</p><p>Dona Maria ent&#227;o levava as m&#227;os &#224; cabe&#231;a, protegida pelo pano de prato, e suspirava fundo. A filha era teimosa feito mula. Mas ela tinha f&#233; que, uma hora dessas, aparecia um homem com culh&#227;o suficiente para domar a menina. Afinal, tinha sido assim com ela. Era o destino das mulheres. Eva ia largar a escola, virar dona de casa e dar muitos filhos ao futuro marido. O certo era isso.</p><div><hr></div><p>Eva dava aula no ensino fundamental. Como a cidade era pequena e faltava recurso, n&#227;o tinha professor para cada mat&#233;ria. Ela e mais dois davam conta de portugu&#234;s, matem&#225;tica, geografia e ci&#234;ncias para a meninada toda.</p><p>N&#227;o ganhava o que merecia. Trabalhava mais por amor do que por dinheiro, j&#225; que a fam&#237;lia tinha condi&#231;&#227;o. Quando algum aluno deixava de aparecer, ia pessoalmente bater na porta da casa. &#192;s vezes era menino que come&#231;ava a trabalhar cedo demais. &#192;s vezes era menina que o pai achava que j&#225; tinha estudado o suficiente. Diziam que estudo dava ideia demais. Ideia de ir embora. Ideia de trabalhar. Ideia de n&#227;o aceitar qualquer destino.</p><p>Convencer os pais de que aquelas crian&#231;as mereciam futuro melhor, mais digno e sem aperreio, n&#227;o era tarefa f&#225;cil. Mas Eva vencia pelo cansa&#231;o. Podiam at&#233; n&#227;o sair dali formados doutor, mas aprender a ler, todos aprendiam. Isso ela garantia.</p><p>&#8212; Tia Eva, a senhora j&#225; viu um lobisomem?</p><p>Era esse o assunto que vinha rondando a escola nos &#250;ltimos tempos. O bendito lobisomem ladr&#227;o de galinha atrapalhava mais a aula que qualquer bagun&#231;a.</p><p>Evinha achava tudo aquilo conversa de interior. Devia ser cachorro do mato, raposa, qualquer bicho desses. Mas o povo preferia acreditar na hist&#243;ria, que era mais emocionante e ainda botava medo nos pequenos.</p><p>&#8212; N&#227;o vi n&#227;o, Julinha. E j&#225; expliquei pra voc&#234;s que lobisomem n&#227;o existe. Isso &#233; lenda. Agora vamos parar com essa conversa, porque depois voc&#234;s n&#227;o dormem e a culpa cai em cima de mim.</p><p>&#8212; Mas, tia, dizem que &#233; um homem que bateu na m&#227;e e virou lobisomem&#8230;</p><p>Quem perguntou foi Luiz, franzino e assustado at&#233; com o pr&#243;prio barulho da cadeira.</p><p>Eva riu.</p><p>&#8212; Nesse caso &#233; bom todo mundo aqui respeitar a m&#227;e direitinho. N&#227;o quero ver aluno meu virando bicho por a&#237;.</p><p>E assim seguiam as aulas, entre ensinar ora&#231;&#227;o subordinada e desmentir hist&#243;ria de assombra&#231;&#227;o. Eva n&#227;o acreditava naquilo nem por um segundo.</p><p>At&#233; chegar a meia-noite daquele dia.</p><div><hr></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif" width="490" height="260" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:260,&quot;width&quot;:490,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-EO0!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_lossy/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F39866941-9897-474c-b126-0fb9794fd8f6_490x260.gif 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Lobisomem de Han Helsing: o ca&#231;ador de monstros, 2004</figcaption></figure></div><p>Era noite de lua cheia. Seu pai e sua m&#227;e tinham ido at&#233; a capital resolver coisa da fazenda, olhar umas m&#225;quinas mais modernas para ajudar na colheita. Era pra terem voltado naquele mesmo dia, mas o tempo virou de repente e uma tempestade mudou os planos. Dona Maria, com medo da estrada naquela chuva, achou melhor adiar a volta e se hospedar na capital at&#233; o outro dia.</p><p>J&#225; passava das onze e Eva ainda n&#227;o tinha ido dormir. Ficara at&#233; tarde corrigindo prova e, com a aus&#234;ncia dos pais e o barulho do tempo ruim, o sono n&#227;o vinha de jeito nenhum. Da varanda do quarto conseguia ver a chuva grossa caindo l&#225; fora. Os arredores ficavam iluminados s&#243; pela lua cheia, porque bastava qualquer chuvinha que a energia ia embora.</p><p>Quase madornando<sup>2</sup>, ouviu gritos do lado de fora. Depois, disparos de espingarda. E ent&#227;o, sil&#234;ncio.</p><p>Ficou im&#243;vel na cama, o cora&#231;&#227;o batendo forte, esperando para ter certeza de que nada mais aconteceria. Foi quando Pipo, seu gato macho tricolor, disparou varanda afora num pulo s&#243;.</p><p>&#8212; Pipo!</p><p>O susto virou desespero. Sem pensar duas vezes, levantou e foi atr&#225;s do coitado, com medo de que alguma coisa pudesse machuc&#225;-lo. Desceu r&#225;pido o curto lance de escadas e saiu pela porta dos fundos, sentindo a chuva respingar no rosto.</p><p>De in&#237;cio n&#227;o viu nada. O quintal estava um breu, cortado s&#243; pelos rel&#226;mpagos que rasgavam o c&#233;u por causa da tempestade. A lua parecia maior, mais pr&#243;xima, quase vigiando tudo l&#225; de cima.</p><p>&#8212; Pipo! Vem timbora pra dentro, safado! Uma hora dessas e tu no mundo!</p><p>Nada do gato.</p><p>Reunindo coragem, foi andando pelo quintal, tentando enxergar no meio do mato algum sinal do bichano. A chuva j&#225; encharcava a camisola de seda, colando-a no corpo.</p><p>Um galho se quebrou &#224; frente, onde o mato era mais alto, chamando sua aten&#231;&#227;o. Pensou que fosse o gato. Correu, aliviada, achando que finalmente tinha encontrado o danado.</p><p>Mas estava enganada.</p><p>Foi derrubada no ch&#227;o antes de alcan&#231;ar qualquer coisa, sem tempo de registrar o que estava acontecendo.</p><p>O que viu por cima dela era irreal. Imposs&#237;vel. De jeito nenhum aquilo podia ser&#8230; era o lobisomem.</p><p>O grito morreu na garganta. No canto dos olhos escuros, o choro nasceu quente, misturado com a chuva. N&#227;o podia ser verdade. Aquela lenda besta do povo, aquela hist&#243;ria pra assustar menino pequeno.</p><p>Ele a encarava.</p><p>As patas &#8212; n&#227;o, as m&#227;os transformadas em patas &#8212; mantinham seus bra&#231;os presos dos lados da cabe&#231;a. As garras afundavam na terra ao lado do rosto dela. Eva tremia. N&#227;o sabia se de frio ou de medo. Talvez dos dois.</p><p>&#8212; Por favor&#8230; n&#227;o me machuque.</p><p>A voz saiu fraca, quebrada. A respira&#231;&#227;o vinha curta. Sentia a &#225;gua escorrer pelos cabelos cacheados, espalhados na terra batida. A camisola branca, encharcada e j&#225; transparente, colava na pele.</p><p>Ela ousou olhar melhor para a criatura.</p><p>Os olhos.</p><p>N&#227;o eram olhos de bicho.</p><p>Eram dourados como o c&#233;u antes do anoitecer. E humanos. Humanos demais.</p><p>O monstro n&#227;o respondeu, talvez por n&#227;o conseguir falar ou por n&#227;o querer falar. Aproximou o focinho do rosto dela, depois dos cabelos molhados. Cheirou devagar, o fungar alto e rouco no p&#233; do ouvido. T&#227;o perto que Eva sentiu o cheiro dele &#8212; cachorro molhado misturado com alguma coisa dif&#237;cil de nomear. Selvagem. Quente. Misterioso.</p><p>Dividida entre o pavor e uma curiosidade que n&#227;o sabia explicar, Evinha ficou im&#243;vel, sem saber o que esperar.</p><p>Ent&#227;o, de repente, soou ali por perto um barulho de tiro e ele a soltou.</p><p>Num salto s&#243;, correu mato adentro, desaparecendo na escurid&#227;o.</p><p>J&#225; passava da meia noite e ela ficou ali, jogada no ch&#227;o, o cora&#231;&#227;o batendo t&#227;o forte que parecia querer sair pela boca. E no peito, al&#233;m do medo&#8230; uma sensa&#231;&#227;o que n&#227;o sabia dizer se era al&#237;vio, medo ou alguma outra coisa.</p><div><hr></div><p><sup>1.Hora do Senhor: costume antigo em muitas cidades do Nordeste, quando &#224;s 18h se faz sil&#234;ncio ou ora&#231;&#227;o em respeito ao sagrado.</sup></p><p><sup>2..Quase dormindo.</sup></p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">The Purple Diary of Gabi is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><p>&#10024; <strong>Apoie este trabalho</strong></p><p>Cada texto publicado aqui envolve pesquisa, leitura, organiza&#231;&#227;o de ideias e muitas horas de dedica&#231;&#227;o. 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isPermaLink="false">https://gabrielytrindade.substack.com/p/a-liberdade-mora-nua</guid><dc:creator><![CDATA[Gabriely Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sun, 03 Aug 2025 00:18:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!K-XF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F51f8b2cf-afe6-4427-84dc-8690eaf69853_1088x1338.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!K-XF!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F51f8b2cf-afe6-4427-84dc-8690eaf69853_1088x1338.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Alone Not Lonely, 2024, Michal Bisola</figcaption></figure></div><p><em>Aviso: </em>O texto a seguir aborda temas sens&#237;veis, incluindo <em>viol&#234;ncia dom&#233;stica</em> e <em>viol&#234;ncia sexual</em> (ainda que de forma sutil, pode causar desconforto). Cont&#233;m tamb&#233;m conte&#250;do <em>er&#243;tico</em>.</p><div><hr></div><p>Ela chegou em casa novamente, como fazia todos os dias. Morava sozinha, numa cidade pequena onde todos se conheciam &#8212; menos a ela. Fora para l&#225; fugida. N&#227;o se preocupou em criar v&#237;nculos; n&#227;o queria lidar com mais nenhum sentimento por ningu&#233;m, ao menos n&#227;o por enquanto. Acreditava que ali encontraria o sil&#234;ncio que precisava, ent&#227;o jamais retribu&#237;a os olhares amistosos e curiosos dos vizinhos &#8212; em sua maioria idosos, moradores antigos daquele bairro familiar e tranquilo &#8212;  por tempo suficiente para abrir espa&#231;o para conversas .</p><p>Deixou a bolsa do trabalho no cabideiro atr&#225;s da porta, como de costume. Acendeu as luzes amenas &#8212; n&#227;o se dava bem com a claridade. Era dessas criaturas das sombras, a luz incomodava seus olhos sens&#237;veis. Caminhou sem pressa at&#233; o banheiro. A casa estava limpa e silenciosa. Pelas paredes, nenhum quadro. Na estante sem televis&#227;o, nenhum bibel&#244;. N&#227;o comprara nada para o im&#243;vel. Alugou-o mobiliado, com tudo de que precisava para manter uma vida funcional, pr&#225;tica e solit&#225;ria.</p><p>No pequeno c&#244;modo sanit&#225;rio, retirou as roupas vagarosamente, como quem vivera com pressa por anos para atender &#224; demandas alheias. Agora fazia tudo com a calma a que se sentia merecedora. Observou-se no espelho: o rosto sereno, como h&#225; muito n&#227;o via; a pele marrom vi&#231;osa, o brilho crescente nos olhos. N&#227;o se achava particularmente bonita, mas naquele instante, viu uma apar&#234;ncia agrad&#225;vel, como a de algu&#233;m saud&#225;vel e serena. Mudar-se para o interior e se afastar da vida antiga fora um passo desesperado &#8212; uma tentativa de encontrar a si mesma e alcan&#231;ar uma paz in&#233;dita.</p><p>Despida de roupas e arrependimentos, deixou que a &#225;gua quente relaxasse os m&#250;sculos &#8212; n&#227;o cansados, mas satisfeitos ap&#243;s um dia tranquilo de trabalho. Seus colegas eram sol&#237;citos e respeitavam seu espa&#231;o. Trabalhava em um pequeno escrit&#243;rio de contabilidade, onde lidava com n&#250;meros &#8212; esses que n&#227;o a tra&#237;am, que ofereciam certezas e traziam a seguran&#231;a que sempre desejou.</p><p>Ap&#243;s o banho e j&#225; seca, caminhou at&#233; a cozinha ainda nua. Preferia assim. Nunca foi afeita a roupas, mas nunca p&#244;de experimentar a liberdade de estar despida nos antigos lares &#8212; nem mesmo com <em>ele</em>, que por tanto tempo acreditou ser o amor de sua vida. Especialmente com <em>ele</em>.</p><p>Da pequena geladeira &#8212; suficiente para suas necessidades &#8212; retirou o jantar congelado. Gostava de comida fresca, mas em dias como aquele, quando os pensamentos insistiam em visit&#225;-la, optava pela praticidade. Seu c&#233;rebro teimoso n&#227;o dispendia energia para tarefas adicionais. Sentou-se &#224; mesa de dois lugares e contemplou a vista pela janela. Ali o sol se punha cedo, e o crep&#250;sculo logo tomava conta do c&#233;u. Era uma paisagem bonita. Sentia-se feliz por poder observar e comer em paz, com a luminosidade natural tomando todo o ambiente a ela tamb&#233;m. Apreciava, sobretudo, seus momentos de sossego.</p><p>Enquanto comia, ainda imersa em devaneios, seu gato &#8212; uma bola de pelos gorda e marrom &#8212; entrou pela janela com um salto. Ela sorriu e se levantou, sem surpresa. Isso tamb&#233;m era bom. A vizinhan&#231;a cuidava bem dos animais. Seu gato n&#227;o ia longe, era castrado e passava a maior parte do tempo dormindo ou fazendo suas coisinhas felinas. Mas de vez em quando, como naquela noite, dava uma escapada no entorno. Ela gostava de pensar que seu bichano se preocupava em n&#227;o ser sedent&#225;rio como ela &#8212; pensamento que sempre a fazia rir, mesmo que a pan&#231;a avantajada do animal dissesse o contr&#225;rio.</p><p>Levantou-se animada com a chegada dele &#8212; a &#250;nica companhia cuja presen&#231;a permitiu permanecer por perto em sua vida. Adotou-o logo ap&#243;s a mudan&#231;a. Sempre desejou ter um animal, mas sua fam&#237;lia nunca permitiu enquanto moravam no mesmo teto &#8212; tampouco <em>ele</em> gostava. Agora, livre de v&#237;nculos que decidissem por ela, se permitia pequenas banalidades antes negadas, por mais simples que fossem.</p><p>Fora bicho a vida toda. Criatura estranha, sempre presa &#224; vontade alheia, mantida sob r&#233;dea curta, vivendo a partir dos outros &#8212; mas com um cora&#231;&#227;o selvagem. Esse cora&#231;&#227;o diferente, inquieto, que a fazia sentir-se inadequada, incompleta e estranha. Sempre fora estranha, mas n&#227;o mais para si e isso agora lhe bastava.</p><p>Ainda era bicho, mas ali experimentava liberdade. Pela primeira vez, fora da jaula, sem amarras que a impedissem de ir longe.</p><p>A bola de pelos miou, contrariado &#8212; faminto ap&#243;s sua pequena expedi&#231;&#227;o. Era exigente e rabugento, mas na hora da comida ficava manhoso, rondando em busca da ra&#231;&#227;o especial e absurdamente cara para gatos castrados. Ela sorriu. Suspeitava que o animal s&#243; se mantinha por perto pela comida. Outras vezes, pensava que n&#227;o. Quantas vezes ele ficou ali ao seu lado no sof&#225;, enquanto ela lia um de seus livros complicados demais &#8212; como <em>ele</em> dizia. Quieto, meio cochilando, meio atento, mas sempre presente. Respeitava seu espa&#231;o &#8212; e o pr&#243;prio. Nunca havia encontrado criatura que respeitasse t&#227;o bem seus sil&#234;ncios. Era uma pessoa silenciosa num mundo barulhento.</p><p>Mas n&#227;o ali, naquele bairro pacato, onde todos dormiam antes das dez &#8212; e o sil&#234;ncio vinha muito antes disso.</p><p>Encheu o potinho de ra&#231;&#227;o e trocou a &#225;gua do gato, sempre acariciando seus pelos sedosos. No fim, valia a pequena fortuna gasta nos sacos de ra&#231;&#227;o premium.</p><p>Jantar terminado, finalmente se permitiu olhar o telefone. Poucas mensagens. A m&#227;e, perguntando como estava e quando voltaria &#224; capital, num tom acusat&#243;rio j&#225; conhecido, mas que n&#227;o a atingia como antes. O pai, com um link do Kawaii que provavelmente ofenderia umas dez minorias diferentes. A irm&#227;, com fotos da &#250;ltima viagem com a namorada &#8212; isso a fez sorrir. A irm&#227; mais nova era seu maior amor. Sentia alegria pela felicidade dela, mesmo que grande parte da conviv&#234;ncia familiar tivesse sido marcada por cuidar de uma crian&#231;a sendo ela mesma ainda uma.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p>Afastar-se tamb&#233;m foi se permitir n&#227;o cuidar de mais ningu&#233;m al&#233;m de si, por um tempo.</p><p><em>Dele</em>, nenhuma mensagem. Nem poderia. Estava bloqueado em todos os lugares poss&#237;veis &#8212; at&#233; no aplicativo do banco.</p><p>Era estranho: algu&#233;m que amou tanto agora lhe causava repulsa at&#233; pela lembran&#231;a da voz.</p><p>N&#227;o sentia saudade, no entanto. Sentia al&#237;vio. Um pouco de medo, talvez. O trauma ainda habitava em si, mas estava livre. Mesmo tendo passado tanto tempo acreditando que a priva&#231;&#227;o de liberdade era amor. Que aquilo era o certo.</p><p>Sozinha no quarto, se sentiu perturbada pelas lembran&#231;as <em>dele</em>. N&#227;o gostava de lembrar, mesmo que, em alguns momentos, fosse necess&#225;rio &#8212; afinal, fazia terapia para aprender a lidar com os dem&#244;nios do passado. Repetiu em voz alta as palavras da terapeuta:</p><p>&#8212; Voc&#234; est&#225; segura. Est&#225; livre e segura.</p><p>Lembr&#225;-lo fazia com que se sentisse presa outra vez. Tinha medo das rea&#231;&#245;es <em>dele</em>, do que viria ao chegar do trabalho, da imprevisibilidade dos humores e da press&#227;o constante para n&#227;o desagrad&#225;-lo &#8212; embora, no fundo, soubesse que nada do que fizesse seria suficiente. O problema n&#227;o era com ela, nem dela.</p><p>Seu apego se dirigia a um homem que s&#243; existiu no come&#231;o &#8212; uma fantasia cuidadosamente encenada para fisg&#225;-la. N&#227;o apenas ela, mas sua fam&#237;lia tamb&#233;m. A m&#227;e, at&#233; hoje, lamentava o fim do casamento. Dizia que a filha era fraca, que n&#227;o suportava o &#244;nus de ser &#8220;bem casada&#8221;, mesmo que ela tenha escolhido deixar para tr&#225;s algo que em algum momento poderia mat&#225;-la, f&#237;sica e metaforicamente.</p><p>Foi o amor do come&#231;o que a prendeu &#8212; aquele que achava inalcan&#231;&#225;vel, e que julgou ser a sua sorte grande. Enfim, viveria seu conto de fadas, com um pr&#237;ncipe bonito que a faria feliz. E ent&#227;o&#8230; aceitou. Aceitou a primeira reclama&#231;&#227;o sobre a roupa. Aceitou o primeiro grito em p&#250;blico, por motivo banal e depois por qualquer motivo que fosse. Aceitou o primeiro empurr&#227;o &#8220;sem querer&#8221;. Aceitou todos os pedidos de desculpas que vinham ap&#243;s cada microviol&#234;ncia &#8212; at&#233; deixarem de ser micro e se tornarem uma rotina dolorosa de agress&#245;es f&#237;sicas e emocionais. Aceitou as roupas escolhidas cuidadosamente para esconder as marcas do amor doentio. Amor que adoecia, amor que n&#227;o era amor. Que tirou dela quase tudo &#8212; principalmente a dignidade.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/p/a-liberdade-mora-nua?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://gabrielytrindade.substack.com/p/a-liberdade-mora-nua?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p>Respirando fundo, olhou ao redor: a cama de casal confort&#225;vel, o quarto bem arejado e limpo, as cobertas fofas, o travesseiro macio. Era dona de si. Do pr&#243;prio corpo e das pr&#243;prias decis&#245;es. Suspirou aliviada. As lembran&#231;as ainda do&#237;am, mas eram apenas isso: lembran&#231;as.</p><p>Ent&#227;o, apreciando a pr&#243;pria companhia &#8212; e a pr&#243;pria liberdade &#8212; se permitiu deliciar-se consigo. Como antes nunca p&#244;de. Como antes n&#227;o era permitido.</p><p>Tomada por uma euforia de se ter, de se provar.</p><p>Os seios entumecidos encontraram dedos gentis, por&#233;m &#225;geis. A pele quente. Os l&#225;bios grossos e carmim, mordiscados pelos pr&#243;prios dentes desalinhados &#8212; aqueles que ele dizia odiar, mas que a faziam &#250;nica. Nunca os consertaria.</p><p>Molhava-se ao toque, pensando em ningu&#233;m al&#233;m de si. Era dela pr&#243;pria que se deleitava. </p><p>Seus dedos encontram sua excita&#231;&#227;o sem pressa, sentindo as dobras fardas, a umidade latente, ali sozinha, deixou que sua voz suave percorresse as cordas vocais para fora da boca, era inebriante se ter assim, se tocar assim, fazer barulho.</p><p>Sentiu-se poderosa. Linda. Desej&#225;vel.</p><p>Encontrando facilmente o ponto que a fazia revirar os olhos de prazer, as pernas abertas, as costas arqueadas. O prazer sublime percorrendo o corpo, a derme arrepiada, entregue, cabelos de bicho, livres e cheios &#8212; como ele odiava &#8212; envolvendo seu rosto suado como algod&#227;o macio. </p><p>Veio com grito de pura manha, puro prazer de se pertencer. </p><p><strong>Ela era dela.</strong></p><p>Sabia disso agora. E mesmo que, um dia, dividisse a cama com outra pessoa, se pertenceria acima de tudo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://gabrielytrindade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">The Purple Diary of Gabi is a reader-supported publication. To receive new posts and support my work, consider becoming a free or paid subscriber.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p><div><hr></div><p>Esse n&#227;o &#233; o primeiro conto que escrevo, mas &#233; o primeiro que publico. Estou levemente satisfeita, levemente duvidosa, mas, acima de tudo, feliz pela madrugada virada escrevendo. Escrever me faz sentir viva &#8212; mesmo com a priva&#231;&#227;o de sono.</p><p>Tamb&#233;m &#233; a primeira vez que escrevo algo er&#243;tico, ent&#227;o ainda n&#227;o sei dizer se ficou bom. Se poss&#237;vel, deixe um coment&#225;rio com a sua opini&#227;o. Quero muito trazer mais fic&#231;&#245;es no futuro e estou em busca de outras pessoas que escrevem nesse g&#234;nero por aqui. Aceito indica&#231;&#245;es!</p><p>Atualmente, tenho uma campanha no <a href="https://apoia.se/gabiescreve">Apoia-se</a> &#8212; uma forma de ser remunerada pelo meu trabalho criativo. Considere colaborar ou assinar a vers&#227;o paga da newsletter.</p><p>Muito obrigada pelo seu tempo e at&#233; a pr&#243;xima!</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>